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Gravidez

Deveria ser uma escolha simples: posso gerar filhxs, tenho um corpo com útero, quero.

Ou: posso gerar filhxs, tenho um corpo com útero, não quero.

Primeiramente isso deveria ser simplesmente aceito. Corpos sem útero não opinam sobre a continuidade ou não de uma gravidez e ponto.

Em segundo lugar, se a escolha for de dar continuidade à gravidez, essa deveria ser respeitada como tal.

X protagonista da gravidez é a pessoa cujo útero foi fecundado.

Quem decide como vai ser seu parto e amamentação? A resposta não poderia ser, por motivos lógicos, “o médico”. Mas é.

No entanto, corpos com útero estão geralmente aptos a parir.

Parto normal não é feito deitado.

Aprendi que amamentação não dói necessariamente e leite fraco é exceção que pode ser evitada com alimentação saudável antes e durante a gravidez.

E por falar nisso, de onde vem o nojo que algumas pessoas têm de barriga de grávidx?

***

Pessoas com corpos que engravidam não podem ser obrigadas a permanecer grávidas por causa de leis ou dogmas ou outras pessoas envolvidas.

Embriões, fetos ou bebês ainda no útero não podem jamais ser considerados mais importantes que a pessoa dona do útero.

A gravidez não pode ser considerada como afirmação de um estado essencial de certo tipo de corpo (feminino), visto que a posição humana na natureza não pode ser igualada a de outros animais hoje em dia.

Coisas como o “instinto materno” ou a falácia de “está na natureza da mulher ser mãe” são coisas anacrônicas numa sociedade como a nossa, que vive uma multiplicidade tão potente de gêneros, sexos, performances e sexualidades.

Da série sobre menstruação: Copinho

Tenho uma relação muito legal com meu copinho.

Uso o coletor menstrual a mais ou menos um ano e meio.

Tudo o que acontece durante a menstruação mudou (pra melhor, diga-se de passagem) desde que eu o uso. Menstruar nunca mais foi um problema pra mim.

Sou muito avoada então era frequente eu estar na rua/trabalho/escola desesperada atrás de um absorvente. Ou então me esquecer de pegar mais e passar metade do dia na rua, totalmente desconfortável, achando que a qualquer momento o meu absorvente ia vazar e sujar minhas roupas.

Minha vida toda usei absorvente externo e no calor era um suplício. Cheguei a ficar com a virilha bastante assada (bem na parte das dobras das coxas) por conta do atrito com o papel/cola.

E bom, por conta do meu descuido em trocar mais vezes por dia, as minhas roupas realmente chegaram a sujar “visivelmente” (entre aspas porque foi pouco, mas visível).

Quase todas as minha amigas do período da escola eram meio pilhadas com o fato de o absorvente poder vazar e as sujar (eu disse quase?).

Desde que eu tenho o copinho minha relação com o sangue, com minha vagina, com minhas roupas, meu calor e etc. mudaram.

Hoje eu lido com meu sangue. Sei quando está muito coagulado ou muito liso. Sei sua cor e principalmente: sei sua quantidade.

Digo ‘principalmente’ porque não temos como ter uma dimensão certa da quantidade em absorventes de papel/algodão. Porque ele absorve e espalha. Temos a sensação de sempre ter muito sangue lá.

Eu sempre me masturbei, mas minha relação com minha vagina também mudou depois que eu passei a usar coletor.

É preciso colocá-lo e tirá-lo do jeito certo, tem o lance do vácuo e dele estar todo desdobrado pra encaixar. A gente tem que dobrar ele pra colocar e tem que ser uma dobra confortável.

Descobri principalmente a força da musculatura da minha vagina. Consigo empurrá-lo facilmente quando quero tirá-lo, até um ponto que facilita puxar ele.

Não tenho mais neura de vazar e sujar toda a minha roupa, por mais que já tenha vazado um pouquinho numas vezes que eu coloquei errado, e é aí que entra a parte mais bonita da história: eu menstruo, sabe? Todo mês. E, por mais que tentem pela publicidade transformar num líquido azul sobre um absorvente brilhante, o que eu menstruo é sangue. Ele não é sujo nem nojento. Ele é natural e vai me acompanhar durante toda minha vida fértil.

Eu ando adorando minha menstruação, aprendendo muito sobre mim e sobre ler meu corpo e esse texto faz parte da minha tentativa de falar sobre nossas coisas não-ditas.

Espero que inspire.

Mãe-mulher-selvagem.

Ser, história, mito… ideia inspiradora.

Para com essa submissão. Para de ser “boazinha”. Para de querer agradar, mulher.

Por dentro você é voraz. Em algum lugar dentro de você tem uma mulher peluda e esperta. que sobe em árvore, corre e briga muito bem.

Ela é você.

e ela é incrível.

Para de apertar-sufocar ela. Para de espremer ela num espartilho mental.

Sem ela você adoece. adoece. adoece.

Sem ela-você você é tímida-quietinha-bonitinha-acompanhante.

***

Lutando pra ser mais bonitinha/Lutando pra ser o que a TV mostrou/Pensar não vai te deixar com rugas.

***

E se deixasse?

eu exijo não ser decorativa.

Homens e Carros

Vão os homens em seus carros.

Mundo particular.

regras gerais do patriarcado que, penso eu, se intensificam na lata-mundo.

regras de desrespeito.

de egocentrismo.

de falocentrismo.

Afinal, o que é um carro para um homem, senão uma extensão de seu pau?

Eles não só param em cima da faixa de pedestre:

Eles urram sobre os corpos femininos que por eles passarem.

Eles aceleram o carro quando te veem atravessando no meio da rua sem semáforo.

Eles jogam o carro em cima de ciclistas.

Eles não só buzinam. Eles mudam de direção pra andar devagar ao meu lado, falando merda.

Dão a volta no quarteirão.

Eles me assustam, e sabem disso. Querem isso.

Só que eu cansei de apertar o passo ou fingir que não te vejo:

Eu vou explodir a porra do teu vidro da frente com uma pedra.

Eu vou cortar sua pica.

  • A importância de falar;
  • A importância de ouvir;
  • A importância de ocupar as mãos.
Regrar o Amor Livre

Regrar o amor livre, já me convenceram, é hipocrisia.

“Liberdade” é ampla, mas sabemos, é desregrada. Amor livre não é necessariamente uma condição para relacionamento aberto. “Aberto” é amplo, mas não tão amplo quanto “livre”.

Regrar uma coisa que pressupõe liberdade, já me convenceram, é hipocrisia.

No amor livre é necessário tato. Amor livre não é para egoístas esbanjarem sua libido. Quer ser e permanecer egoísta? Tenha um relacionamento monogâmico e finjam ambas as partes se amar e respeitar.

Amor livre pressupõe respeito.

Respeito pelo desejo dx outrx. Respeito pelo espaço dx outrx. Respeito pelo ciúme dx outrx. pela insegurança dx outrx. pelo dia ruim dx outrx. Respeito por você, seu desejo, espaço, ciúme e insegurança.

Amor livre pressupõe possibilidades.

Talvez você se apaixone perdidamente. talvez você se divirta em ter vários pequenos romances. talvez você sinta um ciúme terrível. talvez você se machuque muito. talvez você se satisfaça com uma pessoa só, por muito tempo. talvez nada dure mais de uma semana.

Praticar amor livre é permitir-se.

Amor livre pressupõe liberdade de si.

Pensamentos esparsos sobre o Sagrado Feminino

Não gosto de nada intitulado “sagrado”.

Não consigo respeitar nada que coloque alguém de joelhos.

O “sagrado feminino” é a ideia de fortíssima ligação da mulher com a natureza.

É o posicionamento da mulher como mais próxima da força (sobrenatural?) da Terra.

Essa ideia era aceita por ambos os sexos antes das religiões patriarcais tomarem quase todo o espaço. Antes dos humanos (mais exatamente os homens) dominarem certos conhecimentos da natureza e passarem a dominá-la.

Desconhecendo como funciona a força dos raios, a chegada de um terremoto, o momento da chuva devastadora, o crescimento das plantas, o nascimento de uma criança ou a morte de alguém, homens e mulheres acreditavam que eram deuses que regiam tudo. Veneravam a Mãe-Terra por adoração e por medo.

Ainda acho mais saudável ter medo da natureza do que se ver apto a dobrá-la segundo suas vontades.

Hoje fingimos não viver na natureza. Com toda a terra coberta de asfalto, a cidade vive como numa esquizofrenia coletiva.

A chuva não é mais aquela chuva, necessária para a vida. Chove, e não sabemos o que é a chuva. A roupa molhada, a enchente, o trânsito, isso é chuva.

Eu não acredito em coação. Deveríamos respeitar a natureza por sua força, por sua resistência, sua beleza, por sermos também natureza, por existirmos dela, por ela.

O sagrado feminino existe porque a fêmea geralmente pode parir. Geralmente menstrua. Geralmente amamenta. E todas essas coisas eram incríveis, e inexplicáveis durante bastante tempo.

O Sagrado Feminino não precisa deixar de existir só porque mulheres trans existem e não menstruam-engravidam-amamentam.

Primeiramente porque, sob o viés atual, patriarcal e capitalista, essas coisas são pouco importantes. Muitas vezes tidas como “um mal necessário”, uma coisa suja e desagradável, que só é meramente respeitada porque gera crianças (mão de obra, consumidorxs ou herdeirxs).

Consequentemente, muitas mulheres (certamente a grande maioria no ocidente) inculcadas pelo capitalismo-patriarcal, acham seus corpos desgastantes. Menstruar é desnecessário, gasta tempo e dinheiro. Adoece.

MUITAS mulheres tomam remédios para não serem férteis, para não menstruar.

O sagrado feminino não pode deixar de existir ou ser importante às feministas porque é um modo de empoderar pessoas e corpos subjugados há séculos.

Menstruar é bonito. Engravidar (quando é desejado) é bonito. Parir e amamentar são coisas bonitas.

Geralmente mulheres têm ciclos físicos. Ciclos como a lua.

Nossas antepassadas sabiam lidar com sua fertilidade sem matar seus corpos aos poucos. Sabiam lidar com abortivos naturais.

Nossas antepassadas não morreram cedo como as mulheres do patriarcado, devido às gravidezes sucessivas.

Nossas antepassadas se reconheciam na lua e louvavam a natureza de seus corpos.

Não posso esquecer isso num momento tão delicado, onde o capitalismo nos força ser máquina-engrenagem, que exige que não cuidemos do nosso corpo pra poder lucrar disso, que quer legislar nossa reprodução, engavetando nossxs filhxs indesejadxs, pra que sejam mão de obra barata, nos querendo em dupla jornada de trabalho.

As mulheres trans serão nossas irmãs  para sempre, vistas e amadas e acolhidas como mulheres que são. Só não podem exigir (e eu nunca soube de tal exigência vinda delas) que esqueçamos nosso contexto, nossa história de opressão e resistência – que também é a história delas.


Falar é muita coisa.
É muito importante.
Pessoas nascidas com vagina são criadas desde a infância para algo próximo ao silêncio absoluto.
Não falar é muito abrangente.
Inclui desde a falta de confiança em subir num palco e cantar ou de se impor numa discussão, até o silêncio frente uma violência sofrida.
Muitas vezes esse silenciamento sistemático passa despercebido e é por isso que resolvi começar o texto com essa tirinha, que retrata perfeitamente do que estou falando.
Nunca mais peça desculpa antes de se opor a alguém.
 Vivemos numa sociedade onde o “não” da mulher é interpretado como charme, como convite à conquista.
Vivemos numa sociedade onde, ao ver uma mulher se impondo numa discussão, nos achamos (homens e mulheres*) no direito de chamá-la de histérica ou então de achar que sofre com os hormônios na TPM.
Vivemos numa sociedade onde qualquer conversa exclusivamente feminina é tida como fofoca.
A opinião da mulher é secundária se comparada à masculina, e na falta de um homem opinando junto, ela é simplesmente pouco importante.
Então fale, escreva, discuta, cante. E ouça. Precisamos criar fluxos de fala e escuta entre nós. Se expresse e ajude as pessoas a seu redor a se expressar.
Nenhuma irmã ficará pra trás!
Não daremos nenhum passo atrás.



*Homens e mulheres, trans e cis, de todas as orientações sexuais.
(Tirinha de Tailor, seu trabalho incrível pode ser visto aqui)

Falar é muita coisa.

É muito importante.

Pessoas nascidas com vagina são criadas desde a infância para algo próximo ao silêncio absoluto.

Não falar é muito abrangente.

Inclui desde a falta de confiança em subir num palco e cantar ou de se impor numa discussão, até o silêncio frente uma violência sofrida.

Muitas vezes esse silenciamento sistemático passa despercebido e é por isso que resolvi começar o texto com essa tirinha, que retrata perfeitamente do que estou falando.

Nunca mais peça desculpa antes de se opor a alguém.

 Vivemos numa sociedade onde o “não” da mulher é interpretado como charme, como convite à conquista.

Vivemos numa sociedade onde, ao ver uma mulher se impondo numa discussão, nos achamos (homens e mulheres*) no direito de chamá-la de histérica ou então de achar que sofre com os hormônios na TPM.

Vivemos numa sociedade onde qualquer conversa exclusivamente feminina é tida como fofoca.

A opinião da mulher é secundária se comparada à masculina, e na falta de um homem opinando junto, ela é simplesmente pouco importante.

Então fale, escreva, discuta, cante. E ouça. Precisamos criar fluxos de fala e escuta entre nós. Se expresse e ajude as pessoas a seu redor a se expressar.

Nenhuma irmã ficará pra trás!

Não daremos nenhum passo atrás.

*Homens e mulheres, trans e cis, de todas as orientações sexuais.

(Tirinha de Tailor, seu trabalho incrível pode ser visto aqui)